Emoção barata
Havia engolido todas as palavras a seco, assim como engolia remédio. Gostava de sentir a pastilha na garganta, amargando aquela química toda que inventam pra curar e que não curava. Acreditava sim muito em pouca coisa. A mãe lhe dera água de janeiro pra que ela falasse bastante, por alguns anos fluiu, depois não mais, a seco. Morria de uma preguiça de falar. Nada que ela falasse ou explicasse ecoava entendimento. Resolvera se calar. Muito silêncio. Gostava. De muito silêncio.
A noite estava boa pra percorrer a cidade de bicicleta. Andei com uma lua magra e um ventinho que vinha do fim do mundo dizendo que chove. Morna a noite e quase silenciosa me deu alegria. Fazer isso não custou nenhum dinheiro. Voltei com lua e vento e bicicleta e alegria. Nenhum dinheiro, só alegria e essas coisas dependuradas no braço.
No mesmo dia que embarcaram, cada qual pra uma banda do mundo, decidiram escrever. Era uma carta sem fim ou com um fim indefinido. Todos os dias, não religiosamente, mas todos os dias nem que fosse grudar uma folha, nem que fosse colar uma palavra tirada d’um jornal caduco, nem que fosse… Nem que dissesse hoje nem pensei em você, escreveria. Até o dia de voltar. Seria outra coisa, um avesso seria, mas pra dizer que nunca soltaram a mão uma da outra. Iam em sentido contrário, contrariando a ordem. Mães não vão embora nunca - isso é arte dos filhos. Mais uma vez fazia o papel que não era dela. O diário era uma brochura. As passagens dentro. A mala e mais uma bagagem de mão. Se tivesse mais que isso, perderia. Era pouca coisa. Nunca conseguiu passar disso, de menos de meias coisas. E gostava de ter abraços livres. A vida corria, pesada e mais leve.


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