Emoção barata

Rasguei-me inteira para ver de que sou feita - sou feita de seda e pó e sem costuras porque sou humana.

Ele me disse que sofria de uma doença, motivo pelo qual era tão sozinho.
Eu não sofria de nada, salvo um reumatismo que já secou, logo, eu não sofro de mais nada e a sozinhez me acompanha. O negócio é transformar a sozinhez numa coisa boa. Dói tanto, mas depois a gente acostuma e quando vê já aprendeu a se conquistar tanto que se acha a melhor companhia do mundo. Deve ser por isso que viemos costurados a uma sombra que desata quando escurece. Nem ela fica grudada co’a gente o tempo todo, deve ser porque é no escuro que nos percebemos mais corajosos.

(Fonte: inkquest)

Enfim, o que quero dizer é que nós, os românticos, cafonas ou não, risíveis ou não, tristes ou não, não perdemos nada enquanto seguimos o amor. Porque para segui-lo, antes, nós o inventamos.
É bom confiar, dizer não se preocupe, pague quando puder e a pessoa vem te pagar. Gosto de confiar. E nem é pelos trocados é porque é bom mesmo confiar. Abrir a mão.

Ando com “apetecência” por pão. Descobri uma padaria tão ensolarada nessas setes da manhã que nem me demoro a ir comprar o bendito. Conto as moedas e vou ladeira abaixo. Mesmo a rua sendo perigosa, eu me arrisco. Como é gostoso o meu francês!

Era isso: uma vitrine de padaria cheia daqueles doces imensos de malfeitos: bombas. Pães açucarados. Wanderléas. Era vitrine de padaria, onde tudo parece gostoso, mas não é, digo isso com todo respeito aos padeiros. Fazer um monte de doces pra não-se-sabe-quem não deve ser lá muito fácil. Vitrine de padaria. E a gente acha que quer, mas no momento da querência percebe uma varejeira ou uma daquelas mosconas botafoguenses zanzando em zum. Era isso. Só parece que apetece, mas não.

A primeira água de janeiro dava certo. Uma simpatia que toda mãe fazia porque ainda não tinham inventado fonoaudiólogo. Eu não falava, só cismava com os olhos. Minha mãe preocupada. Eu ia fazer um ano em março e não queria falar. Daí no dia primeiro do ano (é assim que os antigos falam), ela, a minha mãe parou um copinho de extrato Etti na goteira e pegou da chuva. Tem que ferver? Não. Tinha micróbio não! A varíola ainda matava, tinha erradicado não e o governador tinha vendido as vacinas pro governo da Bolívia, mas a gente não sabia. Não tomava tanta vacina. Ferve não! Se ferver não vai valer. Tomei a água do dia primeiro do ano, aniversário das coisas todas e da revolução. Bebi e comecei a falar. Todos a meu redor e eu falando.
(…)

Este dia primeiro do ano, quase parei um copinho na calha. 
- Mãe, é só beber da primeira chuva? Preciso voltar a falar.
E ela:
- ‘Dianta mais não, minina.
Sigo calada, cismando com os olhos.

"Já não gosto de cinema, praia, festa e futebolMinha casa é tão pequena, cheira talco e Pinho Sol.”
Gente de raça adota vira-lata.

Gente de raça adota vira-lata.

Fiquei olhando pra minha mãe ontem e me lembrei. Ela não viu que eu a observava. Quando estou entre os meus, fico mais em silêncio, como se no cinema. Eles são os personagens e fico tentando me decifrar. Minha mãe estava tão linda ontem. Me deu os parabéns. Levei uns segundos para entender. Será que me formei? Ganhei algum prêmio? Fiz aniversário? Não.
- Mãe, esta festa é do aniversário da Regina.

Ela sorriu. 
- É mesmo! Sebo! Então já fica cumprimentada pelo seu.
Sigo observando a minha família.