Emoção barata

Rasguei-me inteira para ver de que sou feita - sou feita de seda e pó e sem costuras porque sou humana.

Diz que poeta não é profissão porque escreve o que não sabe escrever.
O poeta desenha o que o outro diz na falta de palavra apropriada, dessa forma se apropria da palavra imprópria e desenha o que não sabe descrever.
Poeta, eu acho que é severino-de-tudo-um-pouco: como não tem profissão, se afina com tudo e tira o pó do ar e tira o ar do espaço. Gruda palavra que não se dá. Dá a mão. Poeta é inventador, mas não é profissão.

"A morte é um desabrigo aos desavisados".

Hoje tinha um quadrado de luz branca na porta da cozinha e ela lá, ciscando o nada porque esse chão não traz a comida invisível das aves. Tem hora que ela bica o ar como se bebesse… Como se bebesse. 
Fiquei uns minutos naquele vazio lunar que era o quintal de manhã e achei que tinha pena dela. Nunca conheceu outro exemplar dela mesma. Talvez morra nessa condição de desconhecimento total da vida. É um pouco autista. Um pouco perdida. Um pouco inútil. Um pouco como eu.

tatecollectives:

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(via lifedrawing1point0)

O mesmo bar. O balcão de fórmica riscado a lápis. Poesia. 
Perguntei sobre. Não é nada. Pedidos dos fregueses.
Duvidei um pouco. Mas tenho preguiça de contenda. E disse logo um “é” evasivo. 
Ali se pedia de tudo. Da impossibilidade humana até a realização do que não vai se dar conta de viver. Da beleza à perfeição. E morte. Vida. E ressurreição. Passado conjugado em presente. Um tanto de mentira. E a certeza de felicidade “se”.
Era poesia sim. Peguei meu guarda-chuva,um octógono preto e penso a não me proteger. Dei um pinote aproveitando as marquises e logo vi o luminoso do ônibus.
Três letras sanguíneas, queimadas. Neon me deprime.

Há coisa de 30 anos quis me eternizar num presente… Comprei um Rubem Braga, mas ele nunca mais saiu da minha estante. Talvez minha ideia de eternidade não tinha muito a ver com a ideia de eternidade do outro. Hoje o outro nem me reconheceria na rua, eu sim. Reconheço as pessoas em menos de um minuto mesmo depois de 30 anos. Queria esquecer às vezes. Deixar uma folha em branco pra me reinventar, mas não. Uso tudo sem parcimônia. Fui ind’agora comprar canela. Estava R$11,50 o quilo. Comprei 100 gramas mas meu secreto desejo era um quilo. Canela é um troço tão bonito que dá vontade de fazer aleluia de canela.
Hoje cedo veio um casal de japoneses no meu trabalho. Pediram uma certidão e eu disse que só um carimbo resolveria. Pra quê pagar por uma certidão? O carimbo não custa nada. Eles ficaram felizes e voltaram com o documento pra eu carimbar. Queriam me dar dinheiro pra um café, mas disse que não precisava, é meu trabalho. Eles me convidaram pra tomar café na casa deles. Gosto da generosidade dos japoneses. A mãe da Mayumi, a dona Etsuko, uma vez me deu muitos agrados só porque lhe dei umas folhas de papel manilha. Não esqueço da generosidade, da fartura, da gratuidade. 
Até hoje olho pro livro e penso que fui egoísta em não dar. Perdi a oportunidade de nunca ser esquecida. Economizei minha generosidade.