

Sinto-me como mãe: ora desnecessária, ora desmedidamente necessária. Olho os braços vazios e sinto um frio de morte a correr pela espinha, mesmo assim entrei numa neurose - desvairadamente quero viver - quero. E não entendo e não me entendo, apesar dos braços vazios, quero! Cortado o coto umbilical a impressão é de invalidez, mas aceito o istmo como meu resto de humanidade, desta que havia perdido e me doia. Endurecia como pão, dia após dia. Já me doia não ser ternura, tampouco ser alimento. Sinto-me mãe de novo - pulsa outro coração que não o meu, apesar do corpo vazio, sou necessária para que algo viva mais e fora de mim.

Para J.C. Rosa
Até quando iria curtir aquele bode? - não fazia a menor ideia - sabia perfeitamente pelas tantas vezes que trocara de roupa naquela segunda-feira. Olhava a rua três vezes a cada volta na cama sem saber o que pegar na cômoda. Sentava. Desenhava na cabeça o trajeto até o trabalho. O que aliviava é que havia um flamboyant em floração. Era um vício ver, era um vício. Contou quantas bitucas de cigarro: treze. E fez mentalmente a decomposição. Sempre pensava na algorítmica gaiola. Subgrafos. E soma o treze e divide e subtrai e multiplica pelo número do quarto, ao valor que pagou pelo táxi. Operações mentais era seu momento de razão, achava bonito, achava bonito, definitivamente quem consegue decepar a cabeça do corpo ou viver com ela na mão, longe do que pulsa. Um Hamlet. Um Zé. Ele era. Um Zé. Olha no espelho. É bonito. Tem olheiras, mas é bonito. A única coisa que diz a que clã pertence. Nem xadrezes, nem brasões. As olheiras dizem. Treze bitucas. A camisa branca à risca de giz. Desce os dezesseis degraus, ganha a rua e um assobio de uma garota de 13 anos.
Estava vivo, mesmo que não parecesse, estava vivo. Assobia e desce a rua como se esquecesse, como se esquecesse.
Un paraguas y un amor
É que hoje cedo, separando o material para reciclagem, foi com certa dor que botei na caixa um guarda-chuva que me acompanhou por quatro verões e nas horas extras que o diálogo entre as quatro estações exigem.
Olhei pra ele. Estava impassível entre os companheiros de labuta: um preto bem a meu gosto, outro preto com bolinhas magenta quase a meu gosto, outros dois cinzas com xadrezes que me agradam muito, um lilás com renda nas bordas que me apaga pacas e um carnavalesco, com jeito de comercial do chocolate Prestígio que só empresto pra quem não costuma devolver, mas ele sempre volta, o que acho bastante insólito em se tratando de um espécime de nylon e arame.
Ele, dourado com estampas que sempre me lembraram amebas. Olho para a caixa. Desisto, coloco novamente entre os seus e imagino o contentamento deles, pois as coisas conversam entre si a linguagem própria das coisas - “Uh, sobreviveu ao corte companheiro! Será que este verão promete?”
Riem aquela risada rouca de quem toma friagem. Vou fazer um café pra pensar melhor. Olho as gotinhas pinga-pingando lentamente igual a chuva na calha e volto à ideia de desistir dele. Está penso, feito a primeira pandorga de menino, mas o tecido ainda conserva bem vivas as amebas - A Anna Nogueira faria uma bela sacola dele - me conforto. Vou até a porta da sala e dou meia-volta. Disfarço minha comoção fazendo que leio os jornais antigos que decorei o porta guarda-chuvas: “Na rua é que se vive”, é o que leio naquela manchete de 1959, ano da revolução. Qual o habitat de um guarda-chuva? Na rua e quando chove, logo, que sentido teria viver ali atrás da porta esperando que alguém o convide a sair? É com certo respeito que o separo porque guarda-chuvas são sempre temperamentais, sempre nos deixam na mão, seja só com o cabo, seja só com o nylon a procurar uma lixeira para deixar a embaraçosa mortalha. Outros, sem aviso prévio, vão para o mundo paralelo dos guarda-chuvas. Este não. Cumprira sua função de anjo-da-guarda com reverência, digo anjo porque, assim como os anjos, a gente só se lembra deles quando precisa - quem se lembra do guarda-chuva quando abre o tempo? Se esquece no ônibus, pendurado no corre-mão, embaixo da carteira e eles não fazem por menos: vão com o primeiro que chama. Este não. Nada de fugas para mundos paralelos. Nada de trocas de “dono”, nada de se fazer esquecer. Pois foram quantos verões e quantas chuvas blitz? Cinco talvez e incontáveis garoas imprevisíveis.
Bem, mesmo assim coloquei-no na caixa entre cartas mortas, caixinhas de perfume, tampas órfãs de canetas, canetas órfãs de tampas, mapas de lugares que nunca mais pisarei, resenhas de peças que nunca mais quero ver, notas fiscais de padaria e um monte de outras coisas que vão pulando de todo lugar quando o barato é esquecer. Fecho a caixa. Amarro na garupa da bicicleta pra levar logo que a chuva dê uma trégua.
Olho para os sobreviventes e me justifico: vai virar sacola, vocês vão ver. A confraria se entreolha com com ar desconfiado, mas sei que no fundo acreditam em mim.
Dou um impulso e sigo pela rua Punta Del Este, é tranquila, por isso fecho os olhos e pedalo. O ar de janeiro é fresco e os passarinhos se atropelam aproveitando a breve estiagem. Lembro-me de Rubem Braga e um Via-Condotti que comprou em Roma por não-sei-quantas-liras. Dizia que, guarda-chuva é uma estranha ave, isso se não me engano, que levantam voo na primeira oportunidade.
Vou me contando histórias de outros que me deixaram e concluo que guarda-chuvas e amores têm lá suas semelhanças. Sobre amores ele não disse nada, eu é que acho.
Agora, na falta de um Via-Condotti, fico com meus medianos “made in China” porque a maioria irá se perder mesmo no mundo paralelo dos guarda-chuvas ou me deixar na mão. Só este que jaz na caixa me fora sincero. Os outros foram e assim serão, como todo guarda-chuva, como todo o amor: sejam chinfrins ou de grifes, sejam grandes ou pequenos, lá se vão pelos ares, pelos ralos, que é o mundo paralelo onde escoam os sonhos.
Un paraguas y un amor
É que hoje cedo, separando o material para reciclagem, foi com certa dor que botei na caixa um guarda-chuva que me acompanhou por quatro verões e nas horas extras que o diálogo entre as quatro estações exigem.
Olhei pra ele. Estava impassível entre os companheiros de labuta: um preto bem a meu gosto, outro preto com bolinhas magenta quase a meu gosto, outros dois cinzas com xadrezes que me agradam muito e um carnavalesco, com jeito de comercial do chocolate Prestígio que só empresto pra quem não costuma devolver, mas ele sempre volta, o que acho bastante insólito em se tratando de um espécime de nylon e arame.
Ele, dourado com estampas que sempre me lembraram amebas. Olho para a caixa. Desisto, coloco novamente entre os seus e imagino o contentamento deles, pois as coisas conversam entre si a linguagem própria das coisas - “Uh, sobreviveu ao corte companheiro! Será que este verão promete?”
Riem aquela risada rouca de quem toma friagem. Vou fazer um café pra pensar melhor. Olho as gotinhas pinga-pingando lentamente igual a chuva na calha e volto à ideia de desistir dele. Está penso, mas o tecido conserva bem vivas as amebas - A Anna Nogueira faria uma bela sacola dele - penso. Vou até a porta da sala e dou meia-volta. Disfarço minha comoção fazendo que leio os jornais antigos que decorei o porta guarda-chuva: “Na rua é que se vive”, é o que leio naquela manchete de 1964. Qual o habitat de um guarda-chuva? Na rua quando chove, logo, que sentido teria viver ali? É com certo respeito que o separo porque guarda-chuvas são sempre temperamentais, sempre nos deixam na mão, seja só com o cabo, seja só com o nylon a procurar uma lixeira para deixar a embaraçosa mortalha. Outros, sem aviso prévio, vão para o mundo paralelo dos guarda-chuvas. Este não. Cumprira sua função de anjo-da-guarda com reverência, digo anjo porque, assim como os anjos, a gente só se lembra deles quando precisa e quem se lembra do guarda-chuva quando abre o tempo? Se esquece no ônibus, pendurado no corre-mão, embaixo da carteira e eles não fazem por menos: vão com o primeiro que chama. Este não. Nada de fugas para mundos paralelos. Nada de trocas de “dono”, nada de se fazer esquecer. Pois foram quantos verões e quantas chuvas blitz? Cinco talvez e incontáveis garoas imprevisíveis.
Bem, mesmo assim coloquei-no na caixa entre cartas mortas, caixinhas de perfume, tampas órfãs de caneta, canetas órfãs de tampas, mapas de lugares que nunca mais pisarei, resenhas de peças que nunca mais quero ver, notas fiscais de padaria e um monte de outras coisas que vão pulando de todo lugar quando o barato é esquecer. Fecho a caixa. Amarro na garupa da bicicleta pra levar logo que a chuva dê uma trégua.
Olho para os sobreviventes e me justifico: vai virar sacola, vocês vão ver. Eles entreolham com com ar desconfiado, mas sei que no fundo acreditam em mim.
Dou um impulso e sigo pela rua Punta Del Este, é tranquila, por isso fecho os olhos e pedalo. O ar de janeiro é fresco e os passarinhos se atropelam aproveitando a breve estiagem. Lembro-me de Rubem Braga e um Via-Condotti que comprou em Roma por não-sei-quantas-liras. Dizia que, guarda-chuva é uma estranha ave, isso se não me engano, que levantam voo na primeira oportunidade.
Vou me contando histórias de outros que me deixaram e concluo que guarda-chuvas e amores têm lá suas semelhanças. Sobre amores ele não disse nada, eu é que acho.
Agora, na falta de um Via-Condotti, fico com meus medianos “made in China” porque a maioria irá se perder mesmo no mundo paralelo dos guarda-chuvas ou nos deixar na mão. Só este que jaz na caixa me fora sincero. Os outros foram e assim serão, como todo guarda-chuva, como todo o amor: seja grande ou pequeno, lá se vão pelo ralo, que é o mundo paralelo onde escoam os sonhos.

Overdose. Sobredose de vida.
Isso tem uns 10 anos, será que não tenho amado o suficiente e necessário? Ora, claro que sim.
Foi num ano novo. Ele me abraçou e disse:
- Tenho dó de você ou não?
- Por que?
- Vai morrer de overdose.
- Bem, acho improvável porque sou careta pacas - disse querendo me safar.Por que foi direto num ponto tão friável?
Afastei-me um pouco e continuei segurando suas duas mãos, considerando seu olhar, esperando que me desse outras pistas acerca da previsão.
- Mas vai morrer de overdose sim, de vida! Pelo seu jeito de amar tão fundo, de emergir, de submergir, de rir, chorar, de fazer e se desfazer das coisas.
Aquilo me deixou encasquetada. Nunca mais me esqueci e a cada ano que vira me lembro dele me dizendo com tanta certeza que quase chego a crer na minha causa mortis, mas isso não me assusta em nada porque ele tinha razão.
Como deve ser morrer de vida? Pelo que me consta, só se morre de morte e bem morrida de preferência.
Mas tenho lá minhas teses: deve ser como saltar de pára-quedas, deve ser como ver um show daqueles que sempre sonhou, ou escorregar de papelão no morro, ver o pôr-do-sol, comer pitanga. Andar de jangada no Amazonas. Ter um amor novo e novo e novo e novo. Pegar o diploma daquele curso que achamos incapazes de terminar ou chegar a uma plenitude que se deve experimentar só nos últimos segundos da vida, isso é claro, quando se morre de overdose de vida.
Ele me disse isso.
Eu nunca mais me esqueci e a cada ano que vem vindo me preparo pra uma sobredose de vida pra provocar de uma vez por todas a falência desde coração besta que bate uma e outra falha, que só sabe amar.
![Pra te consolar
Era pra eu estar dormindo, mas me recuso a deitar sabendo que você sofre. Sei bem como é isso. Em matéria de amor, estar amando ou se sentir assim sei muito, posso te dizer que entendo mais de sofrer do que andar sobre duas pernas, sabe? Andar sobre duas pernas é um eterno desequilibrar-se, apesar de que amar não difere muito. Sim, sou dramática e esta é a minha natureza, não consigo ser de outra maneira do que esta de botar o coração no prato e servir quente, ainda com as mãos sujas. Não sou prática e pretendo nunca ser, pra isso inventaram as lavadoras.Olha, a primeira vez que me apaixonei foi por um enfermeiro que amarrou meu braço com tripa de mico e tirou meu sangue e isso doi quando se tem 3 anos.A vida foi passando, como é natural que passe, e viciei nesse negócio de amar. Tive muitos, não conseguia andar na rua sem me deter numa amostra de amor integral. Cataloguei de forma bem organizada: ele não poderia ser imperfeito e isso indica que, nunca deveria arrotar, não poderia ser fanático por nada, teria de ser básico, diplomático e não falar muito alto. Também nunca pegar na minha mão se eu não quisesse. Deveria ser inteligente ao ponto de saber nomes de rios e seus afluentes, nomes de pássaros, que trem tomar, a direção dos ventos, interpretar mapas e como acontecem os solstícios. Tinha que saber tocar instrumentos e inventar outros, nem que fosse soprar um pentinho Flamengo com celofane e tirar algo bacana de se ouvir.Mas, eu mesma não obedecia o catálogo e me apaixonava por qualquer um que tivesse um sorriso Kollynos e uma dose boa de loucura.Pergunta: conseguiu alguém que se encaixasse? Sim e não. Se sim, foi porque percebo todas as coisas no exato em que acontecem e isso inclui sorriso e doses de loucura; se não foi porque me perco na rapidez das coisas.Posso te dizer que felicidade, principalmente esta quimerazinha que a gente procura no formato [ser feliz x 2 ] não existe. Deve ser tão ou mais difícil que ganhar estes prêmios acumulados na federal: uma em mais de 50 milhões e numa vida não tem como conhecer tanta gente, bom, assim disse o poetinha ”a vida é pra valer e não se engane não, tem uma só”.Então, quero que fique bem com você, só com você. Se quiser tentar, ora, tente! Quem vos consola diz toda esta pataquada, mas não se convence disso, um dia tromba com um sorriso por aí e vai se apaixonar, fará planos e pensará ter sorte suficiente pra ganhar uns dinheiros e comprar uma casa de vidro pra viver feliz (pra sempre).](http://24.media.tumblr.com/tumblr_lupz6a9PJk1qg2kmno1_500.jpg)
Pra te consolar
Era pra eu estar dormindo, mas me recuso a deitar sabendo que você sofre. Sei bem como é isso. Em matéria de amor, estar amando ou se sentir assim sei muito, posso te dizer que entendo mais de sofrer do que andar sobre duas pernas, sabe? Andar sobre duas pernas é um eterno desequilibrar-se, apesar de que amar não difere muito. Sim, sou dramática e esta é a minha natureza, não consigo ser de outra maneira do que esta de botar o coração no prato e servir quente, ainda com as mãos sujas. Não sou prática e pretendo nunca ser, pra isso inventaram as lavadoras.Olha, a primeira vez que me apaixonei foi por um enfermeiro que amarrou meu braço com tripa de mico e tirou meu sangue e isso doi quando se tem 3 anos.
A vida foi passando, como é natural que passe, e viciei nesse negócio de amar. Tive muitos, não conseguia andar na rua sem me deter numa amostra de amor integral. Cataloguei de forma bem organizada: ele não poderia ser imperfeito e isso indica que, nunca deveria arrotar, não poderia ser fanático por nada, teria de ser básico, diplomático e não falar muito alto. Também nunca pegar na minha mão se eu não quisesse. Deveria ser inteligente ao ponto de saber nomes de rios e seus afluentes, nomes de pássaros, que trem tomar, a direção dos ventos, interpretar mapas e como acontecem os solstícios. Tinha que saber tocar instrumentos e inventar outros, nem que fosse soprar um pentinho Flamengo com celofane e tirar algo bacana de se ouvir.
Mas, eu mesma não obedecia o catálogo e me apaixonava por qualquer um que tivesse um sorriso Kollynos e uma dose boa de loucura.
Pergunta: conseguiu alguém que se encaixasse? Sim e não. Se sim, foi porque percebo todas as coisas no exato em que acontecem e isso inclui sorriso e doses de loucura; se não foi porque me perco na rapidez das coisas.
Posso te dizer que felicidade, principalmente esta quimerazinha que a gente procura no formato [ser feliz x 2 ] não existe. Deve ser tão ou mais difícil que ganhar estes prêmios acumulados na federal: uma em mais de 50 milhões e numa vida não tem como conhecer tanta gente, bom, assim disse o poetinha ”a vida é pra valer e não se engane não, tem uma só”.
Então, quero que fique bem com você, só com você. Se quiser tentar, ora, tente! Quem vos consola diz toda esta pataquada, mas não se convence disso, um dia tromba com um sorriso por aí e vai se apaixonar, fará planos e pensará ter sorte suficiente pra ganhar uns dinheiros e comprar uma casa de vidro pra viver feliz (pra sempre).

Mas a gente se ilude e se perde por aí. É como entrar no mar: não se contenta com a água pelos joelhos. É como entrar num cordão, meio tímido no início, depois a melodia fica e a gente vai. É meio… Como assim? Começa com um nada e a gente pensa que não vai se apaixonar, depois o nada vira um troço que não se pode mais medir. Daí você me pergunta:
- No início você não me amava? Nem tinha medo de me perder.
- Não. Sim. Não esperava que alguém aparecesse, daí me perdi e perdi você também.
Para um certo Jean-Paul
Mal comparando: o moço era um Belmondo melhorado. Sabe? Um Belmondo do início
em preto-e-branco. Fiquei com aquelas ideias na cabeça sem saber direito como chamá-lo, daí veio o dia e o insight. Em nada se pareciam, em tudo se pareciam, mas eram bonitos como fita de cinema quando é a primeira vez.



